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Tipo de Documento: Tese
Título: O avanço das sementes dos monopólios e a destruição das cultivares crioulas como uma das faces da acumulação primitiva na atualidade: um olhar para o contexto do semiárido alagoano
Autor(es): Santos, Flávio dos
Data do documento: 23-Out-2025
Orientador: Campos, Christiane Senhorinha Soares
Resumo: A acumulação primitiva, formulada por Karl Marx, descreve o movimento histórico de expropriação que separou os trabalhadores dos meios de produção e abriu caminho para o surgimento do capitalismo. Embora normalmente associada ao período de origem desse sistema, não se trata de um fenômeno encerrado no passado: é um processo que se renova e se atualiza conforme o capital reorganiza suas estratégias para expandir seus domínios. Ancorados no debate sobre a pertinência do conceito de acumulação primitiva para analisar determinados processos de expansão do capital enveredamos na investigação do mercado mundial de sementes, setor que movimenta bilhões de dólares anualmente e que impôs o controle sobre um elemento essencial para a humanidade: a semente. Por meio desse mercado, o capital encontrou um mecanismo para ampliar seu domínio sobre a agricultura, realizando ataques às cultivares tradicionais, suplantando práticas históricas de conservação e impondo dependência aos povos do campo. Esse quadro tem se materializado no Semiárido alagoano, onde o avanço das sementes controladas por monopólios globais tem provocado transformações nas relações de trabalho e práticas sociais de comunidades rurais, cenário que se configura como processos de expropriação. Diante desse contexto, situamos o presente estudo, o qual tem como objetivo analisar o avanço das sementes dos monopólios no Semiárido alagoano e seus impactos sobre as sementes crioulas, demonstrando como esse processo se configura enquanto uma manifestação contemporânea de acumulação primitiva. Para isso, pautamos nossa pesquisa em uma abordagem qualitativa-quantitativa e adotamos o materialismo histórico-dialético como base epistemológica. A pesquisa concentrou-se no Semiárido alagoano, com atenção especial ao Povoado Rolas, no município de Pariconha, onde, por meio de pesquisas preliminares, identificamos a ocorrência de mudanças significativas na relação dos agricultores com as sementes em virtude da ofensiva das cultivares convencionais. A investigação identificou três nuances da ofensiva das sementes dos monopólios no Semiárido de Alagoas: as políticas públicas da distribuição de sementes; a contaminação genética que vem afetando as cultivares crioulas de milho; e o caso específico do Povoado Rolas, onde vem ocorrendo a substituição das variedades tradicionais pelo milho transgênico, impulsionada pela possibilidade de irrigação com a chegada do Canal do Sertão. Os resultados mostram que esses processos constituem formas de acumulação primitiva, pois identificamos que a contaminação das sementes crioulas por proteínas transgênicas tem retirado dos agricultores as sementes tradicionais e destruído um patrimônio genético e cultural construído ao longo de gerações. A substituição das cultivares crioulas por transgênicos, ocorrido no Povoado Rolas, tem colocado uma dependência das sementes dos monopólios, impulsionado o uso de agrotóxicos e alterado as relações de trabalho e modos de vida. Já as políticas públicas de distribuição de sementes, adotadas pelo Governo de Alagoas tem funcionado como mecanismo de favorecimento a empresas do agronegócio. Diante desse cenário, os dados e análises realizados nos levam a conclusão de que o avanço das sementes dos monopólios no Semiárido alagoano representa um movimento atual de expropriação, pois esses processos, ao retirar dos povos do campo o controle sobre as sementes e impor produtos dos monopólios globais, tem modificado as relações sociais desses trabalhadores, destruindo os saberes, a cultura e autonomia produtiva, se configurando, portanto, como movimentos de acumulação primitiva.
Abstract: Primitive accumulation, formulated by Karl Marx, describes the historical movement of dispossession that separated workers from the means of production and paved the way for the rise of capitalism. Although it is usually associated with the period of origin of this system, it is not a phenomenon confined to the past: it is a process that renews and updates itself as capital reorganizes its strategies to expand its domains. Anchored in the debate on the relevance of the concept of primitive accumulation to analyze certain processes of capital expansion, we embarked on an investigation of the global seed market, a sector that moves billions of dollars annually and that has imposed control over an essential element for humanity: the seed. Through this market, capital has found a mechanism to expand its domination over agriculture, attacking traditional cultivars, suppressing historical conservation practices, and imposing dependence on rural communities. This scenario has materialized in the semi-arid region of Alagoas, where the advance of seeds controlled by global monopolies has caused profound transformations in the labor relations and social practices of rural communities, configuring new processes of dispossession. In this context, this study aims to analyze the advance of monopoly-controlled seeds in the semi-arid region of Alagoas and their impacts on traditional seeds, demonstrating how this process constitutes a contemporary manifestation of primitive accumulation. To achieve this goal, the research adopts a qualitative-quantitative approach and is grounded in the historical-dialectical materialism as its epistemological foundation. The investigation focused on the semi-arid region of Alagoas, with special attention to the Rolas Community, in the municipality of Pariconha, where preliminary studies revealed significant changes in farmers’ relationship with seeds due to the offensive of conventional and transgenic cultivars. The study identified three central dynamics in the advance of monopoly seeds in Alagoas: (1) public seed distribution policies; (2) genetic contamination affecting traditional maize cultivars; and (3) the specific case of Rolas, where the substitution of traditional varieties by transgenic maize has taken place, driven by the expansion of irrigation systems made possible by the arrival of the Canal do Sertão. The results show that these processes are clear expressions of primitive accumulation. Genetic contamination has stripped farmers of their traditional seeds, eroding a genetic and cultural heritage built over generations. The replacement of traditional cultivars with transgenics in Rolas has created dependency on corporate seeds, intensified pesticide use, and altered work relations and local ways of life. Meanwhile, public seed distribution policies adopted by the Government of Alagoas have functioned as a mechanism that favors agribusiness corporations, strengthening the private seed market and weakening farmers’ autonomy. Faced with this scenario, the data and analyses developed in this research lead us to conclude that the advance of monopoly-controlled seeds in the semi-arid region of Alagoas represents a current movement of dispossession and, therefore, of primitive accumulation. By removing farmers’ control over seeds and imposing products from global monopolies, these processes have reshaped social relations, eroded traditional knowledge and culture, and undermined productive autonomy.
La acumulación primitiva, formulada por Karl Marx, describe el movimiento histórico de expropiación que separó a los trabajadores de los medios de producción y abrió el camino para el surgimiento del capitalismo. Aunque normalmente se asocia al período de origen de este sistema, no se trata de un fenómeno concluido en el pasado: es un proceso que se renueva y se actualiza a medida que el capital reorganiza sus estrategias para expandir sus dominios. Anclados en el debate sobre la relevancia del concepto de acumulación primitiva para analizar ciertos procesos de expansión del capital, nos embarcamos en una investigación del mercado global de semillas, un sector que mueve miles de millones de dólares anuales y que ha impuesto el control sobre un elemento esencial para la humanidad: la semilla. A través de este mercado, el capital encontró un mecanismo para ampliar su dominio sobre la agricultura, atacando cultivares tradicionales, suprimiendo prácticas históricas de conservación e imponiendo dependencia a los pueblos del campo. Este cuadro se ha materializado en el Semiárido alagoano, donde el avance de las semillas controladas por monopolios globales ha provocado transformaciones en las relaciones de trabajo y en las prácticas sociales de comunidades rurales, configurando nuevos procesos de expropiación. Ante este contexto, situamos el presente estudio, cuyo objetivo es analizar el avance de las semillas de los monopolios en el Semiárido alagoano y sus impactos sobre las semillas criollas, demostrando cómo este proceso se configura como una manifestación contemporánea de acumulación primitiva. Para ello, orientamos nuestra investigación mediante un enfoque cualitativo-cuantitativo y adoptamos el materialismo histórico-dialéctico como base epistemológica. La investigación se concentró en el Semiárido alagoano, con especial atención al Poblado Rolas, en el municipio de Pariconha, donde, a partir de estudios preliminares, identificamos cambios significativos en la relación de los agricultores con las semillas como resultado de la ofensiva de cultivares convencionales y transgénicos. La investigación identificó tres dinámicas centrales en el avance de las semillas de los monopolios en Alagoas: (1) las políticas públicas de distribución de semillas; (2) la contaminación genética que está afectando a los cultivares criollos de maíz; y (3) el caso específico del Poblado Rolas, donde se ha producido la sustitución de variedades tradicionales por maíz transgénico, impulsada por la posibilidad de riego con la llegada del Canal do Sertão. Los resultados muestran que estos procesos constituyen formas de acumulación primitiva. La contaminación genética ha despojado a los agricultores de sus semillas tradicionales y ha destruido un patrimonio genético y cultural construido a lo largo de generaciones. La sustitución de cultivares criollos por transgénicos en el Poblado Rolas ha generado dependencia de las semillas de los monopolios, ha impulsado el uso de agroquímicos y ha transformado las relaciones de trabajo y los modos de vida. A su vez, las políticas públicas de distribución de semillas adoptadas por el Gobierno de Alagoas han funcionado como un mecanismo de fortalecimiento para las empresas del agronegocio. Ante este escenario, los datos y análisis realizados nos llevan a concluir que el avance de las semillas de los monopolios en el Semiárido alagoano representa un movimiento actual de expropiación y, por tanto, de acumulación primitiva, ya que estos procesos, al retirar de los pueblos del campo el control sobre las semillas e imponer productos de monopolios globales, han modificado sus relaciones sociales, destruyendo saberes, cultura y autonomía productiva.
Palavras-chave: Geografia agrícola
Geografia econômica
Bancos de sementes
Sementes – Comercialização
Agricultura e Estado
Capitalismo
Agronegócio
Monopólios
Camponeses
Regiões áridas – Alagoas
Acumulação primitiva
Sementes Crioulas
Estado
Semiárido alagoano
Mercado mundial de sementes
Primitive accumulation
Creole Seeds
State
Alagoas semiarid
World seed market
Acumulación primitiva
Semillas Criollas
Semiárido de Alagoas
Mercado mundial de semillas
área CNPQ: CIENCIAS HUMANAS::GEOGRAFIA
Agência de fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES
Idioma: por
Sigla da Instituição: Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Programa de Pós-graduação: Pós-Graduação em Geografia
Citação: SANTOS, Flávio dos. O avanço das sementes dos monopólios e a destruição das cultivares crioulas como uma das faces da acumulação primitiva na atualidade: um olhar para o contexto do semiárido alagoano. 2025. 302 f. Tese (Doutorado em Geografia) — Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2025.
URI: https://ri.ufs.br/jspui/handle/riufs/24135
Aparece nas coleções:Doutorado em Geografia

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