Use este identificador para citar ou linkar para este item: https://ri.ufs.br/jspui/handle/riufs/25562
Tipo de Documento: Dissertação
Título: Psiquiatria e ficção: ensaios críticos
Autor(es): Rocha, Lucas Ribeiro
Data do documento: 13-Fev-2026
Orientador: Oliveira, Sandra Raquel Santos de
Resumo: Esta dissertação articula dois objetos, psiquiatria e ficção, interessada em produzir regiões de indefinição, de estranhamento do contemporâneo. É por entre essa geografia do tempo, com atenção aos cinzas da história, de costas para o futuro, contra as regras de contratos monumentais, que partimos em aventuras ensaísticas. Há, aqui, dois percursos principais de pensamento. Em um deles, na primeira seção do trabalho, estranhamos a sociedade radicalmente psiquiatrizada em que se encontra atualmente o Brasil; e investigamos a emergência da psiquiatria na França do século XIX, em meio às contradições iluministas da época — dificuldades político-administrativas para legitimar o sequestro e a tutela dos loucos —, a fim de propor outras estratégias de crítica radical à operação de medicalização (ficcionalização) psiquiátrica: em vez de desmascarar a ficção da psiquiatria em tons denunciativos e morais, compreender os seus meios de produção de sentido, para mapear, interromper e desmontar o seu monumento político-ficcional no presente. Lembra Robert Castel, afinal, que a psiquiatria nada mais é do que uma ciência política. Já em outro percurso de pensamento, na segunda seção do trabalho, nos utilizamos da ficção para chafurdar cientificamente as proveniências de nossa catástrofe atual — isto é, os retrocessos acachapantes da reforma psiquiátrica brasileira e a psiquiatrização brutal do nosso tecido social. Instauramos, assim, relações de vizinhança entre duas casas: de um lado, a Casa Verde, formulação ficcional de Machado de Assis, aparato tecnológico manicomial que marca a constituição da psiquiatria no Brasil, atrelada a um paradigma asilar europeu, sobretudo francês; do outro lado, a Casa Branca, sede imperialista e condensadora das mutações psiquiátricas no Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, tendo como modelo paradigmático de exportação-colonização global a psiquiatria comunitária, preventiva. Em meio a essas fronteiras, inspirados em Franca Ongaro Basaglia e Franco Basaglia, Trieste (a cidade-sede da experiência inventiva da reforma psiquiátrica italiana) é colocada entre parênteses, com o objetivo de abrir uma nova indefinição a ser experimentada coletivamente pelos movimentos brasileiros que lutam contra os manicômios e a psiquiatria. Essa e outras tecnologias possíveis de visualização e de narração dos fenômenos nos levam, enfim, a deslocar o conceito de desinstitucionalização: não basta desinstitucionalizar o manicômio, a loucura ou outros artefatos que sustentam a psiquiatria e fazem ela operar na sociedade; é preciso, na verdade, desinstitucionalizar a psiquiatria, a instituição propriamente dita. E isso significa, ao que tudo indica, promover a sua abolição na sociedade, em articulação com o abolicionismo penal.
Abstract: This dissertation articulates two objects, psychiatry and fiction, aiming to produce regions of indeterminacy and estrangement regarding the contemporary. It is through this geography of time — paying attention to the gray areas of history, with our backs turned to the future, and against the rules of monumental contracts — that we embark on essayistic adventures. There are two main paths of thought here. In the first section, we problematize the radically psychiatrized society currently found in Brazil; and we investigate the emergence of psychiatry in 19th-century France amidst the Enlightenment contradictions of the time — namely, the political and administrative difficulties in legitimizing the confinement and tutelage of the insane — in order to propose alternative strategies for a radical critique of the psychiatric medicalization (fictionalization) operation. Instead of unmasking the fiction of psychiatry in a denunciatory and moral tone, we aim to understand its means of producing meaning, so as to map, interrupt, and dismantle its political-fictional monument in the present. After all, Robert Castel reminds us that psychiatry is nothing more than a political science. In the second section, we use fiction to scientifically root around the provenances of our current catastrophe: the overwhelming setbacks of the Brazilian psychiatric reform and the brutal psychiatrization of our social fabric. Thus, we establish relations of proximity between two houses. On one side, the Casa Verde (Green House), a fictional formulation by Machado de Assis representing the asylum technological apparatus that marks the constitution of psychiatry in Brazil, linked to a European — mainly French — paradigm. On the other side, the White House, the imperialist headquarters and condenser of psychiatric mutations in the West after World War II, which uses community and preventive psychiatry as a paradigmatic model for global export and colonization. Amidst these borders, inspired by Franca Ongaro Basaglia and Franco Basaglia, Trieste (the host city of the inventive experience of the Italian psychiatric reform) is bracketed. The goal is to open up a new indeterminacy to be collectively experienced by the Brazilian movements fighting against asylums and psychiatry. These and other possible technologies for visualizing and narrating phenomena ultimately lead us to displace the concept of deinstitutionalization: it is not enough to deinstitutionalize the asylum, madness, or other artifacts that sustain psychiatry and make it operate in society; it is necessary, in fact, to deinstitutionalize psychiatry, the institution itself. This implies promoting its abolition in society, in articulation with penal abolitionism.
Palavras-chave: Psicologia
Psiquiatrização da sociedade
Esaísmo e ficção
Desinstitucionalização
Reforma psiquiátrica brasileira
Psiquiatría preventiva
Psychiatrization of society
Essayism and fiction
Deinstitutionalization
Brazilian psychiatric reform
Preventive psychiatry
área CNPQ: CIENCIAS HUMANAS::PSICOLOGIA
Agência de fomento: Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq
Idioma: por
Sigla da Instituição: Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Programa de Pós-graduação: Pós-Graduação em Psicologia
Citação: ROCHA, Lucas Ribeiro. Psiquiatria e ficção: ensaios críticos. 2026. 144 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) — Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2026.
URI: https://ri.ufs.br/jspui/handle/riufs/25562
Aparece nas coleções:Mestrado em Psicologia

Arquivos associados a este item:
Arquivo Descrição TamanhoFormato 
LUCAS_RIBEIRO_ROCHA.pdf1,23 MBAdobe PDFThumbnail
Visualizar/Abrir


Os itens no repositório estão protegidos por copyright, com todos os direitos reservados, salvo quando é indicado o contrário.